domingo, 2 de novembro de 2014



Em 2 de Novembro de 2014

Morreu o Ernesto Martins. Desaparece assim um dos livreiros-antiquários de Lisboa com maior prestígio. Doente há já algum tempo, vira-se obrigado a abandonar o seu estabelecimento, a Biblarte, em frente ao jardim de S. Pedro de Alcântara. Por lá passaram, durante muitos anos, todos quantos em Portugal se interessavam pelo livro antigo e muitos estudiosos estrangeiros beneficiaram também do seu saber. Passaram-lhe pelas mãos todas as grandes obras da cultura portuguesa e graça à sua amizade, algumas vezes pude ter o indizível prazer de ter nas mãos, de acariciar e folhear  primeiras edições de alguns grandes autores. Era um conversador emérito e algumas histórias bem interessantes me contou. Recordo uma, em particular: a do pedido que Júlio Dantas lhe fez, era ele muito jovem, de lhe trazer todos os exemplares que encontrasse do panfleto com que Almada Negreiro o atacou: Eu mato o Dantas, pum... Dantas pagava-lhe cada exemplar a vinte e cinco tostões, o que na época não era quantia desprezível, mas sempre lhe disse que não guardava rancor ao jovem artista. Ernesto Martins era um homem generoso. Bom colega para os da mesma profissão, ajudou alguns jovens a singrar no difícil ofício. mas também não recusava - ele que viva dos livros - emprestar alguma obra de que um qualquer investigador necessitasse  consultar por algum tempo. E - disse-me - nunca se arrependeu. Foi este homem que hoje partiu, deixando tristes os seus amigos.

Sem comentários:

Enviar um comentário