Vítor Gaspar e o FMI - Há dias, numa
entrevista ao jornal «I», o Dr. Vítor Gaspar, que foi preclaro Ministro das
Finanças do Governo em funções, considerou «quase» insultuoso que se pudesse
imaginar que ele era, nas conversações com a Troika, o seu quarto elemento. Assim
a modos dos Três Mosqueteiros, que passaram a Quatro. Suponho que o Dr. Vítor
Gaspar quisesse repudiar, e bem, quaisquer insinuações de que estivesse
deliberadamente a apoiar medidas da Troika prejudiciais para Portugal. Estou
certo de que não foi assim e que o Dr. Vítor Gaspar sempre fez honestamente o
que achava ser melhor para o seu país. O problema é que a sua formação
científica tem a mesma base da dos elementos da Troika. Em consequência, sendo
a sua visão dos problemas a mesma, também a solução seria a mesma que lhe era
proposta. As teorias que uns defendiam tinham, naturalmente a concordância do
outro. Tanto assim é que, ao ser agora nomeado para um alto cargo no FMI,
depois de um concurso em que certamente mostrou a sua preparação financeira e
explicou as teorias que defende, foi-lhe feito (cito dos jornais) um
significativo elogio pela Presidente do Fundo: «Traz com ele credenciais de
gestão impressionantes e um registo formidável de experiência em política
pública.» Serão precisas mais provas da integração do seu pensamento com o que
domina actualmente o FMI?
João Afonso - Morreu na passada semana, já a caminho dos 91 anos,
um dos grandes nomes da cultura portuguesa do século XX: João Dias Afonso.
Claro que esta nova geração de jornalistas sem saber e sem memória não deu por
nada. O próprio Diário Insular, de
que foi um dos fundadores, em 1946, só quase passada uma semana lhe dedicou uma
pequena notícia. João Afonso – nome com que assinava os seus trabalhos – nasceu
em Angra do Heroísmo em Agosto de 1923, foi jornalista, poeta, escritor e
historiador e lega uma obra notável. Bastaria que tivesse feito apenas a
magnífica Bibliografia Geral dos Açores,
em três volumes, publicada entre 1985 e 1997, para lhe garantir imorredoira
gratidão. Outras obras, porém, deixou, testemunhas de muito trabalho e muito
saber, como, por exemplo, Açores em Novos
Papéis Velhos (1980) ou O Traje nos
Açores (1987). Como jornalista trabalhou no Diário Insular (onde coordenou, durante 30 anos (desde 1946 até
1978) uma notável página de Artes e Letras) e na União, foi correspondente de jornais do continente e, durante cerca
de dois anos, chefe de redacção da agência noticiosa ANI, em Lisboa. Aí o
conheci e me habituei a admirá-lo e a respeitá-lo, pelo saber, pelo
profissionalismo e pela qualidade humana. De volta aos Açores prosseguiu o seu
trabalho: organizou o Museu Etno-Histórico dos Baleeiros dos Açores, nas Lajes
do Pico, foi director da Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo até à sua
integração na Biblioteca Municipal e Arquivo de Angra do Heroísmo, e aí foi
técnico superior principal e, por vezes, director-interino. Andou pelo mundo e
proferiu conferências, muitas delas em Universidades norte-americanas. Foi este
homem que faleceu sem que os jornais dessem por isso.
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